Guerra na Líbia, uma guerra contra a África
Creio que muitos não saibam disso, mas vamos divulgar.
Colaborou com o UND-Jonh Boss my friend.
Via Blog -Burgos4patas.blogspot.com
A GUERRA CONTRA KADHAFI É A GUERRA CONTRA A ÁFRICA
As informações que chegam até nós relacionadas a invasão a Líbia, capitaneada pelos EUA, e executadas pela OTAN, são no mínimo escassas para não dizer repleta de falácias cujo objetivo é o de esconder os reais planos de nações, historicamente criminosas, como Inglaterra e França sobre os povos africanos e asiáticos- como ocorreu durante imensos períodos da “história da civilização europeia”- recentemente reportamos a acontecimentos que encerram tal perspectiva.
Ao que parece, mesmo diante de denúncias das mais diversas que pipocam em várias regiões ( a grande imprensa não divulga absolutamente nada sobre isso) e a saga criminosa prossegue. Parece um uníssono sem nenhum brado contrário. O magnífica análise de Pougala nos convida a fazermos uma reflexão sobre o que de fato acontece no continente africano e o que o destino reserva aos nossos irmãos que lá residem. Ela é longa. Ela é muito esclarecedora, é por isso.
“Depois de 500 anos de uma relação profundamente desigual com o Ocidente, está claro que não devemos adotar os mesmo critérios de bem e mal. Temos interesses profundamente divergentes.“
“Devíamos [a África] abandonar as Nações Unidas para registrar a nossa rejeição a uma visão de mundo que se baseia na aniquilação dos que são mais fracos. “
por Jean-Paul Pougala (*) [Nota: No fim do artigo, há um vídeo, com entrevistas ao autor]
- foto cc NASA- 1- o primeiro satélite africano RASCOM -1
Foi a Líbia de Kadafi que ofereceu a toda a África a primeira revolução de modernidade: a conexão do continente inteiro por telefone, televisão, rádio e demais aplicações tecnológicas, como a telemedicina e o ensino à distância. Pela primeira vez, uma conexão de baixo custo tornou-se disponível em todo o continente, inclusive nas zonas rurais, graças à utilização do sistema WiMax.
A estória começa em 1992, quando 45 países africanos criaram a sociedade RASCOM, para dispor de um satélite africano, e fazer cair os custos de comunicação no continente. Telefonar de, e para a África era, então, sujeito à tarifa mais cara do mundo, porque existia um imposto de 500 milhões de dólares que a Europa cobrava anualmente sobre todas as conversas telefônicas, mesmo as locais, para permitir a utilização dos canais dos satélites europeus, como o Intelsat. Um satélite africano custaria apenas 400 milhões de dólares, à vista, contra os 500 milhões anuais de locação de satélites alheios. Que banqueiro se recusaria a financiar tal projeto? Mas a equação mais difícil de resolver era: como o escravo poderia se libertar da exploração servil do seu mestre, se tinha que pedir ajuda a ele? Assim, o Banco Mundial, o FMI, os EUA e a União Européia ficaram enrolando aqueles países por 14 anos.
Foi em 2006 que Kadafi pôs fim ao suplício da inútil mendicância aos pretensos benfeitores ocidentais prestadores de crédito a taxas extorsivas: o guia líbio entrou com 300 milhões de dólares, seguido do Banco Africano de Desenvolvimento, com 50 milhões, e do Banco do Oeste-Africano de Desenvolvimento, com 27 milhões. E foi assim que a África passou a ter, depois de 26 de Dezembro de 2007, o primeiro satélite de comunicações da sua história.
A China e a Rússia vieram em seguida, desta vez cedendo a sua tecnologia, e permitiram o lançamento de novos satélites, um sul-africano, um nigeriano, um angolano e um argelino. E em 2010, um segundo satélite da RASCOM foi colocado em órbita, em substituição ao primeiro, que tinha sofrido uma pane durante o lançamento, que encurtou a sua vida útil. E esperamos para 2020 o lançamento do primeiro satélite totalmente concebido e construído em solo africano, mais especificamente, na Argélia. Está previsto que esse satélite faça frente aos melhores do mundo, a um custo 10 vezes inferior, representando um verdadeiro desafio.
Eis como um simples gesto simbólico de 300 pequenos milhões pode mudar a vida de todo um continente. A Líbia de Kadafi fez perder ao Ocidente não apenas 500 milhões de dólares por ano, mas milhares de dólares de juros que essa mesma dívida gerava a prazos a perder de vista e de forma exponencial, e que contribuíam dessa forma para manter o sistema oculto de espoliação da África.
2 – O Fundo Monetário Africano, o Banco Central Africano, o Banco Africano de Investimentos
Os 30 bilhões de dólares embargados por Obama pertencem ao Banco Central Líbio e estavam previstos para serem usados como contribuição líbia a três projetos-chave para a concretização da federação africana:
- o Banco Africano de Investimentos, em Sirte, na Líbia;
- o estabelecimento, em 2011, do Fundo Monetário Africano, com sede em Yaounde, com um fundo de capital de 42 bilhões de dólares; e
- o Banco Central Africano, com sede na Nigéria, que, quando começar a imprimir moeda africana, significará o fim do franco CFA, através do qual Paris tem mantido o controle sobre alguns países africanos nos últimos 50 anos. É fácil de entender a raiva dos franceses contra Kadafi.
O objetivo do Fundo Monetário Africano é substituir totalmente as atividades do FMI em África , que, com apenas 25 bilhões de dólares, foi capaz de subjugar um continente inteiro e fazê-lo engolir privatizações questionáveis que forçaram países africanos a migrarem de monopólios estatais para monopólios privados. Não é nenhuma surpresa que em 16 e 17 de Dezembro de 2010, os africanos tenham sido unânimes em rejeitar as tentativas de adesão de países ocidentais ao Fundo Monetário Africano, dizendo que ele estava aberto apenas às nações africanas.
É cada vez mais evidente que , depois da Líbia, a coalizão ocidental se voltará contra a Argélia, porque, além das suas vastas reservas energéticas, o país tem reservas monetárias de aproximadamente 150 bilhões de libras. É este chamariz que move os países que bombardeiam a Líbia, países esses que têm, todos, uma característica em comum: estão à beira da falência. Os Estados Unidos, sozinhos, possuem uma espantosa dívida de 14 trilhões de dólares; França, Inglaterra e Itália apresentam um déficit público, cada um deles, de 2 trilhões de dólares. Esses números são mais gritantes quando comparados com os menos de 400 bilhões de dólares correspondentes à soma dos déficits públicos de 46 nações africanas juntas.
O incitamento a guerras espúrias em África na esperança de que isso lhes revitalize as economias que afundam cada vez mais no marasmo, apressará, em última instância, o declínio ocidental, que na verdade já tinha começado em 1884, durante a notória Conferência de Berlim. Como previu o economista Adam Smith citado, em 1865, por Abraham Lincoln quando da abolição da escravidão nos Estados Unidos, “a economia de qualquer país que dependa da escravidão de negros está destinada a descer ao inferno no dia em que as outras nações acordarem”.
3 – Unidades regionais como obstáculo à criação dos Estados Unidos Africanos
Para desestabilizar e destruir a união africana, que caminhava perigosamente (do ponto de vista do Ocidente) em direção à criação dos Estados Unidos Africanos, sob a liderança de Kadafi, a União Européia tentou, primeiramente, e sem sucesso, criar a União para o Mediterrâneo (UPM). A África do Norte tinha que, de alguma forma, ser separada do restante da África, de acordo com os velhos clichês racistas dos séculos XVIII e XIX, segundo os quais os africanos de ascendência árabe seriam mais evoluídos e civilizados do que o restante do continente. Essa tentativa falhou porque Kadafi se recusou a participar dela. Ele logo compreendeu o jogo que estava sendo armado, quando apenas um grupo de países africanos foi convidado para se juntar ao grupo mediterrâneo, sem comunicar à União Africana, juntamente com todos os 27 membros da União Européia.
Sem a força motriz da Federação Africana, a UPM fracassou antes mesmo de começar, natimorta sob a presidência de Sarkozy e a vice-presidência de Mubarak. O ministro das relações exteriores francês, Alain Juppe, está tentando relançar a idéia, apostando as fichas na queda de Kadafi. O que os líderes africanos não conseguem entender é que enquanto a União Européia continuar a financiar a União Africana, o status quo permanecerá inalterado, porque inexistirá uma efetiva independência. Este é o motivo que levou a União Européia a encorajar e financiar agrupamentos regionais em África.
É óbvio que a Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (ECOWAS), que possui uma embaixada em Bruxelas, e depende, na sua quase totalidade, do financiamento da União Européia, é um vociferante opositor à federação africana. Foi por isso que Lincoln lutou na Guerra de Secessão estadunidense, porque no momento que um grupo de estados forma uma organização política regional, o grupo maior é enfraquecido. Foi isto que a Europa quis e os africanos nunca entenderam, ao criar uma profusão de agrupamentos regionais, COMESA, UDEAC, SADC, e o Grande Maghreb, que nunca viu a luz do dia graças a Kadafi, que entendia o que estava acontecendo.
Kadafi, o africano que limpou o continente da humilhação do apartheid
Para a maioria dos africanos, Kadafi é um homem generoso, um humanista, conhecido pelo apoio incondicional à luta contra o regime racista na África do Sul. Se ele tivesse agido de forma egoísta, ele não teria corrido o risco de sentir a ira ocidental ao apoiar o Congresso Nacional Africano (CNA) tanto militarmente quanto financeiramente, na sua luta contra o apartheid. Foi por isso que Mandela, logo após a sua libertação depois de passar 27 anos na cadeia, decidiu visitar a Líbia em 23 de Outubro de 1997, quebrando o embargo da ONU. Por cinco longos anos, nenhum avião estava autorizado a aterrissar na Líbia. Era necessário ir de avião até à cidade tunisiana de Jerba, e prosseguir por uma estrada que cruza o deserto durante cinco horas, até chegar a Ben Gardane, depois atravessar a fronteira, e continuar por outra estrada através do deserto durante mais três horas, antes de chegar finalmente a Tripoli. A outra solução seria partir de Malta e atravessar o mar em velhas embarcações, até chegar à costa líbia. Uma jornada infernal para toda uma população, apenas para punir um homem.
Mandela não mediu palavras quando o então presidente dos Estados Unidos Bill Clinton disse que a visita era “mal vista”. “Nenhum país pode reclamar para si o policiamento do mundo, e nenhum estado pode ditar o que outro deve fazer,” disse Mandela. E acrescentou, “aqueles que ontem eram amigos dos nossos inimigos e têm a ousadia de dizer, hoje, que eu não devo visitar o meu irmão Kadafi, estão pedindo que sejamos ingratos e esqueçamos os nossos amigos do passado.”
De fato, o Ocidente ainda considerava a África do Sul racista como um irmão que precisava de proteção. É por isso que membros do ANC, inclusive Mandela, foram considerados perigosos terroristas. Foi apenas em 2 de Julho de 2008 que o Congresso dos Estados Unidos votou, finalmente, uma lei para remover o nome de Nelson Mandela e seus companheiros do ANC da lista negra, não porque tivessem finalmente percebido o quão estúpida era essa lista, mas porque queriam marcar o nonagésimo aniversário de Mandela. Se o Ocidente estivesse realmente consternado pelo apoio que no passado dera aos inimigos de Mandela, e estivesse sendo sincero quando passou a nomear ruas e logradouros com o nome de Mandela, como se explica que continue a guerrear contra alguém que ajudou Mandela e seu povo a serem vitoriosos?
Aqueles que querem exportar a democracia são realmente democratas?
E se a Líbia de Kadafi for mais democrática que os Estados Unidos, a França, a Grã-Bretanha e outros países que se valem do apelo à democracia para guerrear a Líbia? Em 19 de março de 2003, o presidente Bush começou o bombardeio ao Iraque sob o pretexto de levar a democracia. Em 19 de março de 2011, exatamente oito anos depois desse dia, foi a vez do presidente francês fazer chover bombas sobre a Líbia, mais uma vez sob a desculpa de levar a democracia. O Nobel da Paz, e presidente dos Estados Unidos, Barak Obama, diz que o lançamento de mísseis Cruise a partir de submarinos é para afastar o ditador e introduzir a democracia.
A questão, que até alguém com o mínimo de inteligência não pode evitar de colocar, é a seguinte: países como a França, Inglaterra, Estados Unidos, Itália, Noruega, Dinamarca, Polônia, que defendem o seu direito de bombardear a Líbia fundamentados pelo seu auto proclamado estatuto democrático, serão esses países realmente democráticos? Se sim, serão eles mais democráticos do que a Líbia de Kadafi? A resposta, na verdade, é um retumbante NÃO, pela simples e evidente razão de que a democracia não existe. Isto não se trata de uma opinião pessoal, mas da citação de alguém cuja cidade natal, Genebra, abriga a maioria das instituições das Nações Unidas. A citação é de Jean Jacques Rousseau, nascido em Genebra em 1712, e que escreveu no capítulo quatro de seu famoso livro “Do Contrato Social”, que “nunca houve uma verdadeira democracia e nunca haverá.”
Rousseau estabelece as quatro seguintes condições para que um país seja denominado uma democracia, condições essas, diga-se de passagem, que dão à Líbia de Kadafi um estatuto mais democrático do que os conhecidos exportadores de democracia:
1 – O Estado: Quanto maior o país, menos democrático ele poderá ser. De acordo com Rousseau, o estado tem que ser extremamente pequeno para que as pessoas possam se juntar e conhecer umas às outras. Antes de pedir o voto às pessoas, o pretendente tem que garantir que todos se conheçam, caso contrário a votação será um ato sem base democrática, um simulacro de democracia para eleger um ditador.
O estado líbio baseia-se num sistema de alianças tribais, que, por definição, agrupa pessoas em pequenas entidades. O espírito democrático está muito mais presente numa tribo, numa vila, do que numa grande cidade, simplesmente porque as pessoas se conhecem umas às outras, compartilham um mesmo ritmo de vida que envolve uma espécie de auto-regulação, ou mesmo, auto-censura, no sentido de que as reações e contra-reações dos outros membros impactam no grupo.